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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ó virgem, explica-me.....

Enéias, que este tumulto espanta e comove, interpela a Sibila: “Ó virgem, explica-me o que quer esta multidão junto do rio. Que pedem estas almas? Por que discriminação algumas são afastadas da margem ao passo que outras varrem com os remos essas ondas lívidas?” A velha sacerdotisa lhe responde abreviadamente: “Filho de Anquises, prole certíssima dos deuses, vês os marnéis profundos do Cocito e os paludes do Estige, cujo poder os deuses temem perjurar. Toda essa multidão que vês, são pobres que ficaram sem sepultura; aquele barqueiro é Caronte; aqueles que a onda conduz foram os sepultados. Não lhe é permitido transportar os mortos para as margens horríveis por cima das roucas ondas, antes que seus ossos tenham encontrado a paz do túmulo. Durante cem anos as almas erram e volitam ao longo dessas margens. Somente então, tendo sido admitidas, vêem por sua vez os marnéis tão desejados”. O filho de Anquises se deteve na sua marcha, pensativo, deplorando no seu coração a sorte iníqua daquelas sombras. Lá ele vê, afligidos e privados das honras da morte, Leucáspide e o chefe da armada lícia, Orontes, que, partidos de Tróia com ele e sacudidos pelos mares tempestuosos, foram assaltados pelo Austro e engolidos na água com navios e homens.
Eis que se aproximava o piloto Palinuro, que outrora, na travessia do mar da Líbia, caíra da popa quando observava as constelações, e havia desaparecido no seio das ondas. Apenas Enéias reconheceu na sombra espessa o seu aflito amigo, dirigiu-lhe por primeiro a palavra: “Qual dentre os deuses, Palinuro, te arrebatou de nós e te mergulhou no seio da líquida planície? Vamos, dize. Pois Apolo, que anteriormente por mim nunca foi considerado mentiroso, enganou o meu espírito respondendo-me e prognosticando que nada havia a temer do mar e que chegarias aos confins da Ausônia. E assim que mantém a sua palavra?” Palinuro responde-lhe: “Não, o tripé de Febo não te enganou, filho de Anquises, meu chefe, e um deus não me mergulhou na líquida planície. Pois o leme cuja guarda me confiaste e ao qual estava agarrado com muita força, a fim de dirigir a tua rota, rompeu-se por acaso sob um golpe violento; precipitado, levei-o comigo. Juro pelos mares tempestuosos que não tive medo por mim, mas sim por teu navio, despojado de aparelhos e privado de piloto, não fosse ele capaz de resistir às tão grandes ondas que se erguiam. Durante três noites de tempestade, o Noto desenfreado por entre a imensidade da líquida planície me carregou sobre as águas; a custo, no quarto dia nascente, erguido no ar, na crista dum vagalhão, vi a Itália diante de mim. Nadava, aproximando-me pouco a pouco da terra; e já estaria em segurança, se gente bárbara, em me vendo com minhas vestes encharcadas, pesado de água, tentando agarrar com minhas mãos crispadas as saliências ásperas dum promontório, não tivesse caído sobre mim na ilusória esperança de despojos.  Agora, presa da onda, os ventos me arremessam para a praia.  Isto te peço, pela agradável luz do céu e pelos ares, por teu pai e pela esperança de Iulo que cresce, livra-me destes males, ó herói invencível: ou dá meu corpo à sepultura, pois tu podes, e procura o porto de Vélia, ou, se há outro meio, se a deusa tua mãe te indicar um (pois não é, creio, sem a vontade dos deuses que te preparas para atravessar tão grande rio e o mamei do Estige), estende tua mão a um infeliz e leva-me contigo através destas ondas, para que ao menos na morte descanse numa plácida morada”.
Tais eram as palavras que havia pronunciado, quando a sacerdotisa começou: “Donde te vem, ó Palinuro, tão feroz desejo? Tu, que não foste inumado, tu verás as águas do Estige e o rio severo das Eumênides, e, sem para tal haver recebido ordens, abordarás esta margem! Cessa de esperar que consigas, com tuas súplicas, dobrar os juízos dos deuses. Mas ouve e retém estas palavras, consolação para a tua dura desgraça: movidos por prodígios celestes que brilharão ao longe e ao largo pelas cidades, povos vizinhos aplacarão teus ossos, erguer-te-ão um túmulo e lhe levarão honras solenes; o lugar terá eternamente o nome de Palinuro”. Estas palavras baniram os cuidados de Palinuro e expulsaram por algum tempo a dor do seu triste coração: ele se alegra porque uma terra terá o seu nome.
Prosseguem, pois, o caminho começado e se aproximam do rio. Logo que, da onda estígia, o barqueiro os viu caminhando pela silenciosa floresta, e dirigindo os passos para a margem, por primeiro lhes dirige estas palavras, e livremente os repreende: “Quem quer que sejas, ó tu que te diriges armado para o nosso rio, dize já a que vens, e detém teus passos. Este é o lugar das Sombras, do Sono e da Noite soporífera; não é permitido transportar na barca estígia corpos vivos. Na verdade, não estou satisfeito de ter acolhido no lago o neto de Alceu que ia aos Infernos, nem Teseu e Piríto, posto que fossem descendentes dos deuses e de forças invencíveis. Aquele pôs em cadeias, com a sua mão, o guarda do Tártaro e o arrancou, tremendo, do trono do próprio rei; os dois outros experimentaram raptar a soberana do leito de Dite”.

Um comentário:

Edi disse...

Legal.
Texto completo (Eneida - Virgilio):
www.revista.agulha.nom.br/eneida.doc
Até mais